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Mortalidade por queimaduras em pacientes hospitalizados em Manzanillo-Cuba em 2015-2017

Mortality due to burns in hospitalized patients in Manzanillo-Cuba in 2015-2017

Carlos Manuel Collado Hernández1; Vivian Pérez Núñez2; Francisco Andrés Pérez Suárez3; Roberto Frías Banqueris4; Sergio Ramón Lorente Gil5; Arbenys Alexis Blanco Machado6

RESUMO

OBJETIVO: Descrever as características dos pacientes hospitalizadas por queimaduras e que foram a óbito.
MÉTODO: Foi realizado um estudo descritivo, transversal e retrospectivo no Departamento de Cirurgia Plástica e Queimadura do Hospital Estadual Clínico Cirúrgico "Celia Sánchez Manduley", em Manzanillo, Granma, Cuba, no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2017. Foram incluídos registros de 19 pacientes queimados falecidos hospitalizados.
RESULTADOS: De um total de 224 pacientes hospitalizados por queimaduras, receberam alta com evolução satisfatória 91,52% e morreram apenas 8,48%. O sexo feminino apresentou maior frequência de pacientes falecidos, com 78,98%, e entre eles a faixa etária de 60 a 74 anos, com 31,58%. A frequência de mortalidade foi maior no pacientes com queimaduras intencionais, com 63,16%. O maior número de mortes por queimaduras foi no grupo com 81-90% de superfície corporal queimada (SCQ), com 31,58%. As principais causas de óbito foram relacionadas ao choque por queimaduras, com 63,16%.
CONCLUSÕES: Existe uma relação estritamente proporcional que a idade mais elevada (principalmente com 60 anos ou mais) e porcentagem de SCQ acima de 40 aumentam a possibilidade de complicações e morte em pacientes queimados, evidenciando-se a necessidade de campanhas preventivas e de promoção da saúde, o que pode ser feito por meio dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, internet), centros de trabalho e educação, comunidade e centros de saúde.

Palavras-chave: Queimaduras. Mortalidade. Promoção da Saúde. Hospitalização.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To identify the characteristics of patients admitted for burns and who died.
METHODS: A descriptive, cross and retrospective study was carried out in the Department of Plastic Surgery and Burns of the Provincial Clinical Surgical Hospital "Celia Sánchez Manduley", in Manzanillo, Granma, Cuba, from January 2015 to December 2017. Nineteen burned patients who died were included in the sample.
RESULTS: Of a total of 224 patients hospitalized for burns, 91.52% presented a satisfactory evolution and only 8.48% died. The female sex presented a greater frequency of deceased patients, with 78.98%, and includes the age group of 60 to 74 years, with 31.58%. The frequency of mortality was higher in patients with intentional burns, with 63.16%. The highest number of burn deaths was in the group of 81-90% burned body surface (BBS), with 31.58%. The main causes of death were related to the burn shock, with 63.16%.
CONCLUSIONS: A strictly proportional relation exists than to higher ages (especially 60 years-old or more) and percent of BBS higher of 40, are the main possibilities of complications and death in burnt patients. The need for preventive campaigns and health promotion was evidenced, which can be done by the mass media (TV, radio, internet), work and education centers, community and health centers.

Keywords: Burns. Mortality. Health Promotion. Hospitalization.

INTRODUÇÃO

As queimaduras são lesões que tradicionalmente são definidas como danos físicos ou traumáticos causados pela transferência aguda de energia (mecânica, térmica, elétrica, química, radiação) que gera, localmente, áreas de hiperemia, estase, necroptose (necrose, apoptose, autofagia associada à morte celular), bem como uma resposta inflamatória sistêmica que busca parar e reparar o referido dano. Nos últimos anos, essa definição foi ampliada, integrando os danos psicológicos e os prejuízos econômicos que acompanham os pacientes de maneira aguda e crônica, suas famílias e a sociedade1.

As queimaduras estão em quarto lugar como o tipo de trauma mais comum no mundo, após acidentes de trânsito, quedas e violência interpessoal, representando uma grande crise de saúde pública global por ser uma das mais devastadoras de todas as lesões. Segundo as estimativas da Organização Mundial da Saúde, em 2004 ocorreram no mundo mais de 7,1 milhões de queimaduras não intencionais relacionadas ao fogo e a taxa de incidência global foi de 110 casos por 100.000 habitantes por ano2.

As queimaduras são um trauma com altas taxas de mortalidade e grave morbidade em crianças e adultos. Nas queimaduras, como em outras doenças, a idade tem um efeito significativo3,4, sendo uma das principais causas de morbidade no mundo, que inclui uma hospitalização prolongada, desfiguração e deficiência, geralmente gerando estigmatização e rejeição5.

Nas últimas décadas, os riscos que mais favorecem a mortalidade foram avaliados em pacientes com queimaduras, o que inclui a área total da superfície corporal queimada (SCQ), a profundidade da queimadura, a idade e a presença de lesão inalatória6,7.

O paciente queimado grave é um desafio clínico e necessita de recursos intensivos, por isso, a previsão de mortalidade na admissão é um instrumento importante na determinação dos resultados das intervenções e na classificação de níveis de cuidado8.

Dentre os instrumentos para a aferição de gravidade e mortalidade, são utilizados os escores de Baux revisado pelo American Burn Society Index (ABSI). Preditores de resultados de pacientes com queimaduras graves são importantes para informar o estado clínico do paciente, definir condutas, aliviar o sofrimento e melhorar a alocação de recursos. Como resultado, eles podem permitir redução de complicações, diminuir o tempo de internação, melhorar aspectos de qualidade de vida e aumentar a sobrevivência8.

Conhecer a etiologia médico-legal da morte no paciente queimado permite criar estratégias mais precisas para reduzir este tipo de morte. Determinar a causa direta da morte tem um valor legal importante tanto em casos de homicídio quanto em supostos acidentes devido a queimaduras. Para a equipe de assistência médica, constitui uma importante forma de avaliação terapêutica e expõe vulnerabilidades no comportamento médico que, quando modificadas, permitem aumentar a sobrevida do paciente queimado9.

Conhecer o comportamento da mortalidade por queimaduras, bem como suas peculiaridades epidemiológicas, é essencial para o bom funcionamento de qualquer unidade de cuidado ao paciente queimado9.

O objetivo deste trabalho é descrever as características dos pacientes hospitalizadas por queimaduras e que foram óbitos no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2017 no hospital de Manzanillo, Cuba, visando contribuir com a prevenção das possíveis causas de complicações e morte.


MÉTODO

Foi realizado um estudo descritivo, transversal e retrospectivo no Departamento de Cirurgia Plástica e Queimadura do Hospital Estadual Clínico Cirúrgico "Celia Sánchez Manduley", em Manzanillo, Granma, Cuba, no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2017. Foram incluídos registros de 19 pacientes queimados falecidos durante a hospitalização.

As variáveis avaliadas foram: possibilidades de sobrevivência segundo a porcentagem de superficie corporal queimada (%SCQ) (com intervalos de 10), idade (faixas etárias com intervalos de 15 anos), gênero (feminino e masculino), causa da queimadura (acidente e suicídio) e causa da morte.

O critério de inclusão foi todos os pacientes hospitalizados falecidos. A pesquisa foi aprovado pela Comitê de Ética do hospital. As limitações deste estudo foram em função de um tamanho de amostra pequeno, pois, apesar de três anos de estudo, 19 pacientes hospitalizados faleceram durante esse período.

Os dados foram obtidos a partir dos registros médicos, coletados e processados usando um banco de dados criado com o Microsoft Office Excel 2007, analisados por meio de frequência simples e porcentagem e apresentados em tabelas.


RESULTADOS

De um total de 224 pacientes internados por queimaduras (Tabela 1), tiveram evolução satisfatória 205 (91,52%) e 19 pacientes foram a óbito (8,48%).




A distribuição segundo sexo e idade é apresentada na Tabela 2, com o sexo feminino apresentando maior frequência de mortes, com 15 pacientes (78,98%) e entre eles a faixa etária de 60 a 74 anos (31,58%), 45-59 anos e 30-44 anos (21,05%), respectivamente, predominaram. É bom ressaltar que, no caso do sexo masculino, a faixa etária de 60 a 74 anos (10,53%) foi mais frequente em pacientes falecidos.




A Tabela 3 mostra que a frequência de mortalidade foi maior nos pacientes com queimaduras intencionais (63,16%) comparada às acidentais (36,84%).




O maior número de mortes por queimaduras (Tabela 4) foi no grupo com 81-90% de SCQ, com 6 pacientes (31,58%), seguido por 91-100%, com 4 (21,05%).




A Tabela 5 mostra que as principais causas de óbito foram relacionadas ao choque por queimaduras em 12 pacientes (63,16%), seguido do choque séptico, em que 6 pacientes morreram (31,58%).




DISCUSSÃO

A queimadura, devido a sua alta incidência, representa um importante problema de saúde pública no mundo e, dependendo de sua gravidade, gera altas taxas de morbimortalidade10,11.

Em nosso estudo, encontramos semelhanças com outros autores12,13. Em uma revisão sistemática de estudos considerando de 1985 até o ano de 2009, envolvendo aspectos epidemiológicos de indivíduos gravemente queimados (com hospitalização) na Europa, o índice de mortalidade ficou entre 1,4 e 18%12. Outros autores, em estudo no Triângulo Mineiro, Brasil (com o qual nossa pesquisa também concorda) observaram taxa de mortalidade entre 1,6% e 7,2%14. Acreditamos que essa baixa taxa de mortalidade seja decorrente dos avanços no tratamento de grandes pacientes queimados e do acompanhamento atual por profissionais treinados e especializados nesse tipo de lesão, que contribuem para a menor mortalidade.

A maior frequência do sexo feminino encontrada em nossa pesquisa coincide com estudos realizados em outros países15. As mulheres estão associadas à maior possibilidade de queimaduras justamente porque, em seu trabalho doméstico habitual, estão expostas a fatores de risco para queimaduras e, por outro lado, são mais propensas ao comportamento suicida e, entre elas, a lesões autoinfligidas por queimaduras, como vemos neste estudo. Esses fatores podem ser as causas desses resultados.

A taxa de mortalidade foi maior nas queimaduras intencionais comparada aos acidentes, coincidindo com autores no Brasil cujas investigações produziram resultados semelhantes16. Isso pode estar relacionado ao fato de que os pacientes que optam por se privar da vida por meio de queimaduras utilizam líquidos inflamáveis como agentes etiológicos e despejam quantidades suficientes em seus corpos para causar lesões por queimaduras extensas e profundas.

A grande maioria dos pacientes falecidos tinha uma porcentagem de superfície corporal queimada acima de 50%, causando a morte devido a complicações relacionadas à grande extensão da superfície corporal queimada, coincidindo com os estudos realizados de Leão et al.17, feito em Minas Gerais, Brasil, e de Marques et al.18, que relacionam o alto número de SCQ à taxa de mortalidade com a gravidade da lesão e suas complicações. É evidente que à medida que a porcentagem de superfície corporal queimada aumenta, as possibilidades de complicações e morte são maiores.

Entre as causas de morte nesses pacientes, estavam o choque por queimaduras, choque séptico e edema pulmonar. Essas complicações aparecem no grande queimado produto dos distúrbios que causam as queimaduras dessa magnitude nos diferentes órgãos e sistemas orgânicos, que em sua evolução desfavorável, levam o paciente à morte. Estes resultados coincidem com os autores de um estudo em um Centro de Referência de Ananindeua, Pará, Brasil10 que encontraram entre as principais causas de morte as já mencionadas.

Depois de 1990, quando se começou a utilizar a excisão do tecido desvitalizado, percebeu-se que a morbidade e mortalidade relacionadas às infecções no paciente queimado diminuíram consideravelmente19. Apesar disso e, ainda, do desenvolvimento de agentes antimicrobianos tópicos e sistêmicos, os avanços no suporte nutricional e enxertia precoce da área queimada, a sepse continua representando um grande desafio20.


CONCLUSÃO

Existe uma relação estritamente proporcional que a maior idade (principalmente idade de 60 anos ou mais) e porcentagem de superfície corporal queimada acima de 40 aumenta a possibilidade de complicações e morte em pacientes queimados.

Evidenciaram-se a necessidade de campanhas preventivas e de promoção da saúde para evitar queimaduras, o que pode ser feito através dos meios de comunicação de massa (televisão, rádio, internet), centros de trabalho e educação, comunidade e centros de saúde.


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Recebido em 6 de Agosto de 2018.
Aceito em 23 de Abril de 2019.

Local de realização do trabalho: Hospital Estadual Clínico Cirúrgico Celia Sánchez Manduley, Manzanillo, Granma, Cuba.

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


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