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Acesso aberto Revisado por pares
Editorial

Um novo paradigma é necessário para aumentar o potencial translacional da ciência à prática clínica

The need of a new paradigm to increase the potential of knowledge translation to the clinical practice

Maria Cecilia B J Gallani

A prática baseada em evidências (PBE) tem sido considerada nas últimas décadas como pedra angular do que é definido como cuidado de alta qualidade em saúde. A PBE apoia-se no emprego de diretrizes de boa prática clínica, construídas a partir de resultados de análises de revisão abrangente e rigorosa da literatura disponível, originados majoritariamente de ensaios clínicos randomizados (ECR).

Tem-se constatado, no entanto, que o rigor que caracteriza o ECR, ao mesmo tempo em que garante sua força científica do ponto de vista de validade interna, contribui para a falta de validade externa, ou seja, da capacidade de generalizar os seus resultados para uma população ampliada e, ainda, de garantir sua incorporação no contexto real da prática clínica.

Os rigorosos critérios de seleção dos ECR resultam em amostras da população muito mais homogêneas do que a populaçãodo mundo real; o elevado controle na manipulação da variável independente e do ambiente torna o contexto não representativo da complexidade do mundo clínico e, também importante, o processo de aleatorização resulta não raramente no descontentamento de participantes e de profissionais e, por conseguinte, à autosseleção, à descontinuidade e à não adesão à intervenção.

Um dos meios que têm sido propostos para superar o hiato entre os resultados de pesquisa e a prática clínica é o estudo pragmático, o qual tem como finalidade verificar a efetividade do tratamento ou de intervenções no mundo real, isto é, verificar o quão essas estratégias comprovadas como eficazes no mundo ideal da pesquisa são reproduzíveis e eficazes quando aplicadas no mundo real da prática clínica1.

Porém, antes de chegarmos à etapa do estudo pragmático é importante que o novo tratamento ou nova intervenção em teste tenham sido concebidos com vistas à sua transferabilidade à prática clínica. Este aspecto é ponto central do paradigma do cuidado em saúde de alta qualidade centrado no paciente2 e que é fundamental, sobretudo, quando falamos de intervenções complexas do tipo multicomponentes e multinível, por exemplo, aquelas que combinam estratégias educacionais, de apoio à modificação de um ou vários comportamentos relacionados à saúde em diferentes momentos do continuum do cuidado, como são caracterizadas muitas das intervenções planejadas ao grande queimado.

O potencial translacional de uma intervenção começa a se delinear na etapa de seu planejamento2, no qual a inclusão da abordagem experencial é fortemente recomendada para garantir a apreensão do que o paciente e os profissionais de saúde potencialmente envolvidos na intervenção pensam sobre o problema e sobre os elementos que devem compor a intervenção.

Esta abordagem é fundamental para a proposição de uma intervenção que, elaborada a partir de conceitos teóricos e dados empíricos, tenha maior potencial de aceitabilidade tanto pelo paciente como pelos profissionais de saúde que aplicá-la-ão no futuro, assim como de adequação ao contexto visado e, consequentemente, de incorporação no cotidiano clínico. Nessa perspectiva, os estudos pilotos são essenciais para os ajustes da intervenção, antes de dar início à fase do ECR, no qual a eficácia da intervenção será testada em contexto ideal de pesquisa com o maior controle possível dos fatores intervenientes.

Uma vez demonstrada a eficácia da intervenção, passa-se à fase dos estudos pragmáticos que terão maior probabilidade de obter resultados que reforcem a factibilidade e a eficácia dos novos modos de tratamento no mundo real da prática clínica. A partir desses resultados, são então elaboradas as diretrizes de prática clínica, tendo-se claro o problema a ser tratado, a intervenção mais adequada e de como a resposta à sua implementação pode variar segundo características particulares do paciente e do contexto.

É imperioso quea prática clínica possa avançar em paralelo ao avanço na produção do conhecimento, para que a população possa se beneficiar desses avanços. Novas formas de planejamento de intervenção, estudos de efetividade sob a forma de estudos pragmáticos, assim como a utilização de estratégias mais inclusivas e participativas de integração dos resultados de pesquisa à prática clínica constituem uma estratégia essencial para tornar acessível e incorporável à população o tratamento que melhor responda às suas necessidades em saúde.


REFERÊNCIAS

1. Patsopoulos NA. A pragmatic view on pragmatic trials. Dialogues Clin Neurosci. 2011;13(2):217-24.

2. Sidani S, Braden CJ. Design, Evaluation, and Translation of Nursing Interventions. Ames: Wiley-Blackwell; 2011. 320 p.

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